Memórias de Abril.
36 anos após o 25 de Abril, ainda restam memórias do sonho que foi esse dia. Para a maioria o sonho não passou de um sonho e o que resta é a memória desse sonho. Para mim, o sonho continua a ser sonho e prefiro viver nesse sonho do que viver sem sonhar. Um dia esse sonho chegará numa nuvem de espuma brindando com todos:VIVA a Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Equidade.
A minha 1ª Lição sobre o 25 de Abril.
A esperança moribunda
Deixo a memória dum Paradense brindando o 25 de Abril.
Um pouco de historia vivida em Angola no 25 de Abril.
Eu, Zé Carrapato, estava na Provincia da Lunda na cidade de Henrique de Carvalho no Leste de Angola. Quando nesse dia pela manhã levantei-me para fazer o café, sendo eu o cozinheiro-dia, vi o Costa de Braga que era radiotelegrafista no STM (serviço de telecomunicações militares) muito agitado. Era-mos muito amigos. Perguntei : o que é que se passa? nunca te vi assim tão preocupado. Não sei pá, não temos nenhuma comunicação com a metropole.
Não sabemos nada do que se passa no Puto. Em linguagem militar o Puto era Portugal.
Quase às 7 horas aparece o Costa no refeitorio quando toda a gente tomava o pequeno almoço e diz :houve um golpe de estado no Puto. Alguns nem sabiam o que era um golpe de estado. A maior parte saltava e cantava : Lisboa, Lisboa, Lisboa. Eu tinha um grande amigo lá no pelotão que era o ex-arbitro José Alberto Veiga Trigo!!., o Compadre Alentejano. Diz ele, mas ainda com medo: já ganhamos Cardoso os facholas ja foram àgua abaixo. E depois cantàmos juntos coforme sabiamos e podiamos. Era assim:
Quero, quero ir para Lisboa
Quero ir embora
Nem que seja de canôa
Quero ir embora
P'ra minha terra querida
Vou dizer adeus à tropa
E começar nova vida.
Ja disse adeus ao rancheiro
Ao sargento lateiro
Ao cabo e ao furriel
Ja entreguei minha farda
A mochila e a espingarda
Ja disse adeus ao quartel.
Depois era a ansiedade de regressar a Aldeia que nos viu nascer. Eramos alguns de Parada nessa altura a cumprir o serviço militar nas provincias ultramarinas. E eu comunicava com eles todos por escrito. Era o meu primo Antonio Diéta na Guiné, o Zé Carriço, se não me engano creio que era em São Tomé, o Zé Augusto em Angola, o Eduardo Sagucho em Angola, o Zé Mário Melhor em Moçambique e o Quitanga em Angola. Até que chegou o dia.
Três dias de viagam até Luanda. Quando lá cheguei a primeira pessoa a visitar foi o Quitanga. Lá estava na cozinha a fazer batatas cozidas com feijão frade e carapau frito. Depois da refeição saímos, fomos até à baixa de Luanda "Portugalia" mas por onde passavamos era camarão e cerveja, (perguntem-lhe se eu minto). Depois disse-lhe: Fernando daqui a dois dias vou para o Puto. Disse-me podes levar-me umas coisitas para a familia? sem problema disse eu.
No dia do embarque para a metrópole, veio comigo até ao aéroporto. Quem é que la encontramos? o Zé Augusto. Mais uma horita à conversa, eu e Zé Augusto, seguimos para a pista de embarque e lá ficou o Fernando Quitanga a chorar.
E às 6h30 da manhã do 31 de Janeiro de 1975, o 747 poisou no aéroporto de Lisboa com dois paradenses. Zé Carrapato e Zé Augusto.
A história do 25 de Abril do Zé Carrapato.
Fado do 25 de Abril
Ó gente nova do fado
Não falem mais dum passado
Que nem lembrar eu já posso
Deixem as coisas d'outrora
cantem o mundo de agora
Que o mundo de hoje é que é vosso
Deixem p'ra lá as severas
As toiradas e as esperas
E as tristes cenas bairristas
Em vez de fados saudades
Cantem fados liberdade
Cantem fados progressistas
Com vossas vozes castiças
Combatam as injustiças
Feitas p'los grandes senhores
Digam sem medo de alguém
Que os fadistas também são
Filhos de trabalhadores
Ó gente nova do fado
Deixem p'ra la o passado
Que ABRIL cortou p'la raiz
Desde esse dia dos cravos
Deixamos de ser escravos
E hoje o Povo é mais feliz
Fado do Zé Carrapato em homenagem a Abril
Viva o 25 de Abril..
ResponderEliminarO sonho ainda comanda a vida, mas eles nem sabem nem sonham.
ResponderEliminarNós cá estaremos, sem trocar um patrão por outro.
Hoje, literalmente, está um dia de sol!
Já agora, belo testemunho!
Confesso que foi com alguma ...nem sei que dizer,,,que hoje, depois de efectuar uma pequena homenagem a um amigo (já falecido), lutador anti-fascista, defensor da Liberdade e que tanto lutou (antes e depois do 25 de Abril), por Abril e por Portugal Democrático, verifico que as conversas de café, de rua, de passeio...não são do dia que é hoje (Feriado Nacional) mas sim dum tal penalti que não foi marcado, num jogo não sei de quê, para um campeonato não sei de quantos.
ResponderEliminarEnfim...
VIVA 0 25 de ABRIL de 1974...SEMPRE!
eu tinha 5 mesesm, quando se deu om25 de Abril de 74. Tinha uma vida pela frente. Mas hoje 36 anos depois, pergunto. Onde está Abril??? Onde está e revoiução que levou o meu pai ao largo do Carmo. ONDE ESTÁ PORTUGAL... CARALHO.
ResponderEliminarNunca te esquecerei..25 de Abril sempre.
ResponderEliminarObrigado Zé Miguel..é o meu sentir.
ResponderEliminarPenso Aflores..que as pessoas, na maioria os jovens, por não terem sentido na pele o antes do 25 de Abril, leva-as a acharem que os mais velhos estão a empolgar a história com o que se passou nessa altura. Para muitos deles é o futebol que está na moda e pronto. Esperemos que isto não dê uma cambalhota. Abraço
ResponderEliminarNem tudo está mal polittikus. Embora esteja para alguns ainda na gaveta o certo é que foram muitas as conquistas para melhor servir o povo e o país. Também é verdade que alguns tentam com que seja esquecido, mas esse é o papel dos que sempre quiseram mandar e os outros que se lixem.
ResponderEliminarPor mim também, Abril.
ResponderEliminarha alguns mese atras,alguem em brincadeira deixou neste blog,em respeito a futebol o seguinte. o puerto este ano ja foi co caralho.reacçao inimaginavel do dono do blog a tratar de mal educado o autor desta anedota sem querer ofender seja quem fosse.houve trocas de comentarios onde o autor do comentario explicou o que queria dizer a pavra caralho. resposta do proprietario do blog.nao admito palavras obcenas no meu blog!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!.se os cestos querem dizer isso faça-os e meta-se la dentro.
ResponderEliminarporque e que agora o aflores vem com a palavra caralho e nao se diz nada?.....porque estao os dois metidos no mesmo cesto? ha mais mares que marinheiros,e professores e PROFESSORES.passe bem e pense bem,que por vezes os anzois picam mais que o piripire.
peço imensa desculpa ao aflores por este erro da minha parte.o nome a quem me queria referir e o politikus.mais uma vez peço perdao ao aflores.
ResponderEliminarSó acho piada grande memória que o palavrão usado no dito futebol não era palavrão e a justificação é que eram cestos, agora o mesmo palavrão já não são cestos mas um palavrão. Sabe o que é que eu acho é que tanto o grande memória como o polittikus levem os cestos para outro lado que aqui não é lugar para os limpar. Ora passe bem..
ResponderEliminarAqui está uma história bonita e bem contada sobre Paradenses.
ResponderEliminarDeixo a sugestão de neste blog se contarem + algumas histórias de Paradenses espalhados por este Mundo e das suas aventuras.
Abraço,
David Almeida
É uma história de vida David.
ResponderEliminarSe repararmos bem nas palavras que o Zé Carrapato emprega, a forma como lhe deram a conhecer a revolução do 25 de Abril, a forma como fala dos colegas Paradenses que estavam no ultramar, e a forma como fala do regresso, é algo que lhe vem do coração. É linda.
Quanto ao que propões David, estará este blogue disponivel assim que queiram. Toda a história que tenha a ver com Parada de Gonta será contada se o quiserem. Gr. abraço
O momento de vida contado pelo Zé Carrapato pode e deve ser o início de uma memória que bem pode aqui ser relatada. Os nomes de que fala fazem parte do meu imaginário e guardo-os na memória, apesar de na altura só ter oito anos.
ResponderEliminarPode parecer estranho mas naquela idade o Quitanga, o homem da Lurdes Carola (tão recentemente falecida), o irmão da Mariana (ambos falecidos), o Zé das latas, o Tero, e muitos outros eram exemplos para os mais novos em muitos aspectos. Lembro-me que guiavam Sachs e Zundaps e exibiam-se em frente à Venda do Zé lacrário (Por baixo da casa do João Felício, ao lado dos Correios), local de encontro incontornável.
Aliás, o grande desafio era ver quem desde a estrada real mais depressa chegada à Venda, o mesmo é dizer quem tinha coragem de parar mais tarde.
E eu via isto tudo da janela da casa dos meus avôs em frente.
Quantas estórias se não passaram e não me saêm da memória.
O Zé Carrapato bem podia escrever mais porque para além de bem escrever tem assunto para contar.
Parabéns e Obrigada por ter sofrido em nosso nome.
Agora, que por razões profissionais me encontro por terras que Diogo Cão nos deu a conhecer, na cidade outrora designada de São Paulo da Assunção de Luanda, sou impelido a encontrar “compensações” á enorme saudade que gera um profundo sentimento de angustia, nostalgia e tristeza recorrendo a todos os meios que me proporcione “noticias do meu país”. Esta sensação que quase me causa morrinha – expressão que os irmãos Galegos associam a uma doença de animais – mas que a nossa Amália imortalizou numa das estrofes do fado com o mesmo título que, perdoem-me estas “lamechices”, peço para transcrever:
ResponderEliminarNa minha solidão, que é toda minha
Na minha solidão, sozinha
Tristeza em botão que eu guardo na mão
Crescendo, crescendo, morrinha
Bom, a internet é nas sociedades modernas o género, e de tanta importância, tamanha, como o invento da “roda” na era do paleolítico. E, sempre que tenho um instante, (infelizmente são poucos!) busco neste universo de cultura, fantasia, conhecimento e comunicação o minúsculo clique para que a Web me leve até Parada de Gonta. Minúscula na proporção da sua dimensão mas grande na sua beleza, nas suas tradições, na sua cultura e na bondade do seu povo.
Por coincidência, neste blog e nos comentários referentes ás comemorações do 25 de Abril de 1974, o meu amigo Zé Carrapato, (um abraço, Camarada!) relata a sua passagem por estas terras de Angola, em serviço militar, e refere locais e sítios que ainda hoje permanecem e se identificam como então. Depois de conhecer um pouco de Luanda fiquei com uma enorme sensação de orgulho e de algum sentimento nacionalista, (sem qualquer conteúdo ideológico, obviamente) pela herança cultural e patrimonial que deixamos aos angolanos. São evidentes os prédios, as ruas, os maravilhosos edifícios estatais, as pontes, o caminho de ferro, os portos, enfim, um sem número de marcas da nossa passagem por Angola. Aquando da independência, o petróleo já era a principal exportação superando o café e os diamantes. Era também um grande produtor de minério de ferro. O território mantinha-se quase auto-suficiente (!) na área alimentar, exportava uma grande variedade de produtos agrícolas e a sua industria pesqueira era significativa. Infelizmente, todos nós sabemos o que se passou posteriormente, mas as suas potencialidades naturais são enormes e inquantificáveis. Paradoxalmente, num difícil quadro económico e financeiro que atravessamos, Angola tem tido de Portugal o seu principal parceiro comercial, liderando as exportações (vendas) para este país. No geral, o cidadão angolano nutre pelos portugueses estima e admiração e não os substitui por qualquer outra comunidade. O nosso passado colonial, ao contrario de outros países, não pode deixar de nos orgulhar na medida em que, mesmo tendo ocupado um território que não era nosso, nunca fomos racista e a força militar e repressiva usada na ocupação era a mesma que reprimia os cidadãos portugueses. A mesma força que fez com que fossem obrigados a combater em Angola e noutras colónias os nossos amigos Ze Augusto, o Ze Carrapato, o Zé Mário, o Eduardo Sagucho, o Fernando Quitanga, o Zé Carriço e o Dieta entre muitos outros já citados.
O 25 de Abril apenas se limitou a “cumprir” com a irreversibilidade da dialética da história e só se lamenta e extemporaneidade do acontecimento. No entanto, de certo, seria pretensiosismo achar que o processo de descolonização, noutra circunstâncias, poderia correr melhor ou pior. Está feito, a história registou e aos poucos vai-se descrevendo os factos com a pureza do distanciamento da data.
Os valores da liberdade são inquestionáveis como um dos principais pilares do que se chama regime democrático. Mas, atenção, a democracia tem conceitos que não poderão ser equacionados, mesmo quando se invoca os valores dessa liberdade.
Um abraço,
Rui Faria
Luanda, 28.05.2010
Saudade dessa terra Rui Faria. Ainda devo ter alguns amigos em Luanda que gostaria de encontrar, mas a vida é assim. Fez trinta anos que daí saí http://arteagostinho.blogs.sapo.pt/302953.html . É um país em evolução.Quanto ao conto do Zé Carrapato é dos mais bonitos e .sinceros aqui escritos.Para ti Rui um grande abraço e que tudo corra de feição.
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